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7 de dez. de 2010

O Homem Cobra (SSSSSSS) (1973)

Alerta: este post viola a regra dos 15 anos 
e poderá comprometer as suas memórias de infância para sempre! 

Uma das minha lembranças mais vívidas da minha infância é o - então próspero - Sr. Sílvio Santos anunciando o filme "O Homem-Cobra" (sim, sou velho!). Durante intermináveis minutos - que pareciam horas a fio - o dono do Baú falava, falava e falava deste filme que era "muito bom" - embora não desse maiores informações a respeito, a não ser que se tratava de um homem se transformando numa cobra. Eu não lembro se eu dormi no meio ou fiquei assustado demais para ver o final ou se simplesmente esqueci mas a questão é que eu não lembrava de praticamente mais nada do filme - daí resolvi assisti-lo, mesmo contrariando a regra dos 15 anos, segundo a qual não se deve jamais assistir um filme que você assistiu com menos de 15 anos de idade (e gostou). Não me arrependi de ter assistido novamente (mesmo porquê a minha recordação era muito fragmentária) mas tive duas grandes surpresas no processo. Spoilers á frente!

Surpresa número 1:
O nome do filme não é Homem-Cobra 
(ou qualquer equivalente em inglês)

O nome do filme é SSSSSSS (imitando o sibilar de uma cobra). Isto fica bem evidente no fotograma que coloquei abaixo:


(note o detalhe que os "esses" são estilizados como cobrinhas, reparou?) 
 
Por incrível que pareça eu meio que lembrava disto, pois sempre prestei muita atenção nos títulos originais dos filmes (mesmo quando criança) pois era uma maneira prática de localizá-lo depois pelo anúncio da programação nos jornais (que, naquela época que se amarrava cachorro com linguiça sempre traziam o título original entre parênteses).

Quando o filme passou na Inglaterra alguém - dotado de um mínimo de bom-senso, se me perguntarem - percebeu que um título com uma consoante só não atrairia muito público e mudou o nome para SSSSnake - "cobra" com um "s" puxadinho. Melhor!
 
Supresa número 2:
O foco do filme não é beeem o Homem-Cobra

O cientista pra lá de maluco que inventou o método revolucionário de se transformar um homem em cobra é muito mais o foco do filme do que o candidato a homem-cobra. A maior parte do filme é centrada nos assassinatos  que o tal cientista comete ao longo do caminho mais do que qualquer outra coisa. Como é um filme temático, todos os assassinatos envolvem... cobras, evidentemente. 
 
E a experiência afinal de contas, deu certo?
 
O cientista do filme sonha em "criar uma criatura viva com o poder de uma cobra e a inteligência de um ser humano". O que aprendemos pelo final do filme é que ele consegue criar  sim, um ser vivo com o poder de uma cobra mas sem nenhum instinto de cobra - ou seja, uma cobra aleijada. Eu sempre digo que "em terra de cego, quem tem um olho é Portador de Necessidades Especiais" - e esse filme comprova bem isso! (vejam lá o final e vocês vão entender!)
 
Nota Nerd: como curiosidade, o ator que faz o homem-cobra é Dirk Benedict, que depois faria o Starbuck de Galáctica, Astronave de Combate (a clássica, não a reimaginada) e o cara-de-pau de Esquadrão Classe A. A filha do professor e par romântico do futuro homem-cobra é a Heather Menzies, a Jessica 6 de Fuga das Estrelas (a série, não o filme).

25 de nov. de 2010

Como Fazer um Filme de Zumbi a la Romero - Tutorial

1. Romero-style. Indroduza os zumbis na trama de forma abrupta e sem dar explicação alguma. A frase "Os mortos estão voltando" dita em tom bem sério, bem olho no olho, já é explicação suficiente. Emende isso com uma cena de ação/fuga bem vibrante para ajudar os expectadores a não pensar mais no assunto (a não ser, é claro, depois de encerrado o filme, em rodinhas com os amigos e posts como esse).  

Dica: se necessário, mate o personagem que começar a tentar explicar muita coisa - isso vai ensinar à platéia que é melhor ficar de bico fechado - pelo menos durante o filme.

2. A Barricada. Reúna os seus personagens principais em um ambiente que possa ser defendido. Isto é importante: mostre-os dispendendo algum tempo barricando o lugar ou executando tarefas equivalentes - reunindo armas, procurando mantimentos, checando as entradas e saídas, etc. Isto vai ajudar o seu público a sedimentar na cabeça que aquele ali é um espaço de Ordem, em contraposição ao Caos que virou o mundo lá fora.

3. Botando Ordem na casa. Mostre os  personagens se organizando internamente: quem vai liderar, quais os planos que eles têm, "quem vai ficar de vigia no primeiro turno" e assim por diante. Isto reforçará a idéia de que aquele ambiente representa um Microcosmo fechado (ou quase fechado). Enquanto isso, lá fora, o número de zumbis só cresce.

Dica: comece a soltar aqui e ali uma ou outra deixa dos conflitos existentes entre os personagens e das motivações por detrás deles: quem vai liderar (tem sempre um ressentido), "quem vai ficar de vigia" (ninguém em sã consciência quer ficar) e, o mais importante, quem fica com a única espingarda carregada na casa. Este é um bom momento também para indicar para o expectador o personagem que foi secretamente mordido por um zumbi (se existir um no seu filme) e/ou o personagem traíra (que vai dar a volta no grupo).

4. Pré-ruptura. Escalone o conflito entre os personagens. Introduza, se possível, um limitador de tempo e/ou recursos. Os  zumbis lá fora parecem chegar de caminhão.

5. Ruptura. A desorganização interna (os conflitos) aliada à desorganização externa (o número crescente de zumbis) leva, eventualmente, ao colapso do sistema. Os conflitos interpessoais que até ali estiveram mais ou menos contidos explodem de vez e os zumbis penetram no abrigo. Se houver um personagem que tiver sido mordido por um zumbi em uma etapa anterior, possivelmente é este o momento em que ele vai se transformar. Não vou te enganar não: quase a metade dos seus personagens vai morrer nesta fase.

6. Fuga. Os personagens abandonam o seu refúgio - agora tomado pelos zumbis - em direção a um espaço considerado "seguro" - geralmente, este novo espaço já havia sido mencionado na fase 3. Boa parte do restante dos personagens morre nesta fase.

7. Final. Esquece isso de Final Feliz: num final típico a la Romero as coisas não se resolvem e o mundo não volta ao que era antes, muito menos os personagens (se sobrou algum!). 

18 de nov. de 2010

Needle (2010)

"Quão parecido com Hellraiser um filme pode ser sem o quebra-cabeças em formade cubo, sem pinhead e sem os cenobitas?" Esta foi a pergunta que eu me fiz quando vi o cartaz e li a descrição de Needle. Acabei percebendo, no decorrrer do filme, que a proposta não é nem um pouco parecida com a de Hellraiser - está mais para um filme de Terror adolescente comum. 

A trama é bem simples: um grupo de universitários começa a morrer misteriosamente após se depararem com um misterioso artefato do século XIX. A narrativa é bem linear e conforme o que se pode esperar deste tipo de filme. Os personagens são extremamente esteriotipados e são incrivelmente previsíveis no seu comportamento. O resultado final, no entanto, é bastante assistível até - e garante alguma diversão. Um filme-pipoca!

15 de nov. de 2010

The Crazies (2010)

O filme The Crazies fala de uma cidadezinha no interior dos EUA que é tomada por um vírus que tranforma as pessoas em maníacos homicidas. Esta é - em 140 ou menos - a história do filme. Acrescentando que se trata de um remake de um filme de 1973 escrito e dirigido por George Romero - o "pai" dos modernos filmes de zumbi - não se tem muito mais o que  se dizer do ponto-de-vista técnico. Agora vamos ao que realmente interessa!

Quem acompanha as minhas postagens de The Walking Dead sabe que eu não sou muito fã de zumbis "científicos" - embora pareça que esta categoria de zumbis já tenha definitivamente conquistado o seu lugar no Cinema e na TV. Enquanto assistia The Crazies, eu me perguntava o que diferiria os infectados deste filme dos zumbis científicos de Extermínio e Resident Evil e a conclusão que eu cheguei é... nada! De repente descobri, como que numa epifania, que a razão pela qual eu instintivamente desgosto de filmes de zumbi que se fundamentam em algum vírus ou alguma contaminação biológica como forma de justificar a sua origem é porque, na verdade, se trata de um filme de epidemia querendo se passar por um filme de zumbi - e é essa falsidade ideológica no roteiro que me repugna. Vamos ser honestos aqui: se está infectado, é porquê está vivo; e se está vivo, é porquê não é zumbi. Simples assim. The Crazies, neste sentido, é muito bom porquê é um filme de epidemia "honesto" - e, embora os infectados apresentem alguns sinais de transformação física nos estágios finais da doença (olhos amarelos e veias escurecidas) - isso não é feito de maneira a confundir o expectador a pensar que se trata de algo parecido com um morto-vivo, mas tão somente um sinal avançado de infecção.

No  mais, o filme realmente é muito bom, bem assistível e envolvente. Segue mais ou menos o script comum a histórias de epidemia - que é pelo menos tão velho quanto o livro "A Peste" de Camus (1947) - mas é muito bem executado. Spoiler Alert! Você tem a figura de autoridade menor que tenta alertar (inutilmente) alertar as autoridades maiores do risco para a população, você tem o infectado que ameaça a vida dos companheiros mas que se redime no final e você tem o final-surpresa - mas tudo muito bem trabalhadinho. Vale beeem a pena!

11 de nov. de 2010

The Walking Dead - S01E02 – Guts

 Spoiler Alert! O segundo episódio de The Walking Dead não decepcionou - mas ficou, de alguma forma, aquém do que eu gostaria. A trama toda foi um mini-Dawn of the Dead perceberam? Eu não lembro de nada disto que foi mostrado nos comics - o que não significa que não esteja lá, só que eu não lembro! Não sei se cochilei mas o fato de um dos sobreviventes no prédio fazer contato por rádio justamente com o grupo fora da cidade no qual está a esposa e o filho do policial Rick (o nosso herói) pareceu - pelo menos para mim - uma extraordinária forçação de barra! Bom, este foi o review do episódio: agora vamos à parte realmente importante: zumbis!

Me incomoda muito que zumbis - que, pelo menos teoricamente, estão mortos - "farejem" o ar como cães perdigueiros - e isto me incomoda por um simples motivo: eles não respiram! As cenas nas quais isto acontece requereram um esforço extra de suspension of disbelief de minha parte - pois quebraram toda a plausibilidade do cenário até então construído na minha cabeça. High School of the Dead - antes de descampar de vez para o estilo fan service, trabalhou este conceito de uma forma muito melhor: ao relacionar o direcionamento dos zumbis à percepção de sons e vibrações. Embora este mesmo episódio de The Walking Dead tenha explorado alguma coisa da atração dos zumbis pelos sons - que é um tema, inclusive, bastante recorrente nos quadrinhos - o grande destaque ficou por conta das habilidades, digamos, "farejadoras" dos mortos-vivos. O fato de se ter dado um destaque maior para as faculdades olfativas dos zumbis, pode indicar uma dependência maior destes do cérebro primitivo (paleocórtex) em detrimento das faculdades intelectuais superiores (neocórtex) - provendo, desta forma, alguma base neurológica para o comportamento dos walkers. Isto os colocaria, é claro, muito mais na categoria de zumbis científicos - aqueles que na verdade estão vivos, mas infectados - do que na categoria de zumbis sobrenaturais estilo Romero - que estão verdadeiramente mortos. (já falamos desta distinção entre os dois tipos básicos de zumbis neste outro post).

Fiquei de olho desta vez para ver se os zumbis "corriam" - que é, como sabemos, uma característica dos zumbis científicos - mas o que eu vi foi, no máximo, um "andar apressadinho" - e nenhuma corrida de fato que merecesse este nome. No entanto, os zumbis deste episódio sobem escadas, escalam cercas e usam até mesmo instrumentos primitivos (como uma pedra para quebrar vidro) - o que, embora não seja totalmente incompatível com zumbis sobrenaturais, representa, por si só, um grande distanciamento dos quadrinhos. Não deixa de ser uma opção interessante para aqueles que - como eu - leram a HQ antes de assistir à série: pois podemos sempre aguardar por novas surpresas - e não por uma mera roteirização do que já lemos na HQ.

O fato de os zumbis da versão televisiva escalarem cercas por si só já desconstrói arcos inteiros dos quadrinhos - como aquele nos quais os sobreviventes se refugiam por trás de uma cerca de tela e arame farpado.

Por sua vez, o fato de os zumbis correrem - ou, pelo menos, andarem com muita pressa - inviabiliza um acampamento no espaço aberto - como nos foi mostrado aqui. Nos quadrinhos isso só é possível porquê os mortos-vivos caminham bem devagar - podendo ser avistados e alvejados muito antes de se tornarem uma séria ameaça. 

O pobre caipira que foi deixado para morrer no alto do prédio - que, com toda a certeza, não aparece nos quadrinhos - e o desfecho algo inconclusivo (tinha um monte de ferramentas espalhadas pelo chão, não tinha?) pode indicar um "gancho" para um retorno do personagem. Aliás, o simples fato de terem escolhido um ator tão bom -  Michael Rooker, pesquise por aí! - já é um indício de que ele pode muito bem voltar a aparecer - talvez como antagonista do grupo de sobreviventes. Se isto acontecer, vamos ver como vai ficar o resultado final: o grande barato dos quadrinhos de The Walking Dead - o que o torna especial - é justamente o fato de não existir polarização Bem versus Mal - sendo simplesmente a história de uma grupo de pessoas tentando sobreviver em um mundo absolutamente caótico. Algo, aliás, em tudo parecido com a vida real.

2 de nov. de 2010

Nerdcast 232 - Monstros

Este post é escrito especificamente para os que ouviram o Nerdcast 232 e 233. Se você chegou aqui por algum motivo e não os ouviu vá aqui e aqui - e depois retorne. 
  
Ouvindo a leitura de e-mails do Nerdcast 233 - me incomodou a dificuldade do JN e do Azaghal em definir o conceito de monstro - justamente que havia sido o tema do Nerdcast anterior- "Dragões, monstros e o impronunciável Cthulhu". Este post é uma tentativa de colocar alguma luz sobre este conceito - que é, por sua própria natureza, refratário a esta iniciativa. 

Definido o que é "monstro":

O conceito de " monstro" deriva de três noções básicas que se articulam:

(1) Existe uma Ordem no mundo;
(2) Esta Ordem não é perfeita - e, ocasionalmente, falha;
(3) Quando esta Ordem falha - aí, neste vão, neste espaço, surgem os monstros.

(Poder-se-ia argumentar aqui que a falha na Ordem é - por si só - um Ordem em si mesma  - mas não vamos entrar neste debate - por demais filosófico para este Blog.)

Estes três conceitos ficam fáceis de se entender a partir da contemplação do quadro de Goya (ao lado), intitulado "O Sono da Razão Produz Monstros". A razão, aqui, não é a razão humana - mas a razão na Natureza - o princípio de Ordem  e razão presente na Natureza.

Como base nestes três pressupostos o monstro - seja ele qual for - é sempre exceção e sempre um desvio da Ordem natural das coisas - é sempre algo que não deveria existir. Muitas vezes, também, os monstros se localizam/originam de lugares ermos ou inacessíveis - o que serve para representar fisica e geograficamentemente o seu caráter de exceção. O monstro, além disso, tipicamente se propaga - quando tal ocorre, de forma não-biológica e não-natural - ou possui uma duração indefinida, o que o exime da necessidade de reprodução. 


Respondendo às dúvidas do Nerdcast:

Desta forma, usando a lista dada pelo próprio Nerdcast (leitura de e-mails do 233) como exemplo:
 
Gremlins (os do filme de mesmo nome) são monstros.
Lobisomens - como em The Wolfman (2009) - são monstros. Lobisomens - como em Anjos da Noite (2003) - não são.
Drácula - de Lugosi, de Lee ou como em Bram Stoker´s Dracula (1992), por exemplo - é um monstro.
A Múmia - como no clássico de 1932, The Mummy bem como na versão-pipoca de 1999 com  Brendan Fraser - é um monstro.
Frankenstein - de Karloff, por exemplo, mas também o Mary Shelley's Frankenstein (1994) - também é.
Zumbis sobrenaturais são monstros. Zumbis científicos não são.
O caminhão de Encurralado e o Tubarão - de Jaws - não são monstros
Freddy Krueger é um monstro (como não?). 

Detalhando: 

Gremlins: tanto na sua forma Mogwai quanto na forma réptil - são monstros, porque: (1) existem em caráter de exceção (quem lembra bem do primeiro filme de 1984, nã ovai deixar de perceber que o Mogwai é tratado como um "animal" raro/exótico); (2) se reproduzem de forma não-biológica (quantos animais você conhece que se multiplicam ao se adicionar água?). 
Lobisomens: os Lobisomens do filme recente (e belíssimo) The Wolfman (2009) são seres de exceção - que só existem em um local (vilarejo) remoto, etc. - e  se propagam de forma, evidentemente, não-natural. 
Já os Lobisomens (e também os Vampiros)  vistos em Anjos da Noite (2003) e que se constituem em uma verdadeira comunidade de existência paralela à da Humanidade não são monstros - são, no máximo, um espécie diferente da humana, com peculiaridades próprias. 
Drácula: o Drácula do livro de Bram Stoker é de fato o monstro por excelência: existe em caráter de exceção (não há menção a outros vampiros no livro - tirando, evidentemente, as "noivas") e em lugar remoto não-sujeito às leis da civilização (algum lugar dos Cárpatos,  "esta terra onde o diabo ainda caminha com pés humanos", como o infeliz Johnatan Harker escreve em seu diário). Menções no Cinema - e posteriormente nas séries de TV - a toda uma raça de vampiros existindo em paralelo à humana são invenções muito, muito recentes.
A Múmia: contanto no no clássico de 1932 - com Karloff - bem como nos  dois primeiros filmes da Trilogia recente com  Brendan Fraser, a Múmia é encarada como um caráter de exceção. No  primeiro filme (1999), inclusive, é claramente colocado que o simples fato da Múmia ter retornado à vida é algo tão grave, tão sério, que desafia de tal maneira a ordem natural das coisas que o mundo começa a experimentar os sinais do Apocalipse. - ou seja, de ruptura iminente da Ordem. (No segundo filme isto é abertamente esquecido: e vemos a Múmia em forma plenamente humana andando pra lá e pra cá sem que nada de mais aconteça). 
Frankenstein: o simples fato de as pessoas se referirem ao monstro de Frankenstein já seria algum indicativo do seu caráter monstruoso. Aqui há algo interessante: no livro de Mary Shelley, a criatura chantageia o seu criador para que lhe construa uma companheira - esta também feita de pedaços de cadáveres. O plano do monstro - se não me falha a memória - é tomar a sua companheira e seguir para algum lugar ermo onde viveriam happily ever after. Não haveria nenhum impedimento - até onde eu imagino - de o  monstro de Frankenstein meramente raptar uma humana qualquer e seguir no seu intento - mas este quer que seja alguém igual a ele - e que partilhe do mesmo caráter de exceção em relação à Humanidade.
Zumbis: os zumbis sobrenaturais são monstros porquê representam uma violação da ordem natural ("Quando não houver mais espaço no Inferno os mortos caminharão pela Terra"): Já os zumbis científicos não são monstros: são, no máximo, pessoas doentes. Isto suscita um dilema ético importante pois, a qualquer momento, poderia surgir uma cura que os revertesse à normalidade. Eu, por mim, sou á favor da volta aos zumbis tipo Romero.
O caminhão de Encurralado: não é um monstro propriamente dito - pois não partilha de nenhuma carcterística "monstruosa" - mas foi tratado no fime como um monstro - como o JN bem ressaltou.
Tubarão: esse é realmente difícil. É fácil perceber que King Kong e Godzilla são monstros, mas o Tubarão (de Jaws) é complicado. Embora este também tenha sido tratado de forma algo monstruosa no filme - do mesmo Spielberg - um tubarão é um tubarão - e, verdade seja dita, o número de vítimas humanas fatais por ataque de tubarão é insignificante perto do que nõs como espécie fazemos com os tubarões todos os anos (são milhões de mortos). Neste caso, nós somos os monstros!
Freddy Krueger: quem lembra bem dos primeiros filmes de A Nightmare on Elm Street (e o título já diz tudo: "Um Pesadelo na Rua Elmo") sabe que a origem de Freddy Krueger está ligada a algo que aconteceu na cidade de Springwood - e sua atividades oníricas estão especificamente relacionadas aos filhos das pessoas responsáveis pela sua morte. Inclusive, se bem me recordo, haveria uma limitação para o alcance de sua atividade - que não se extendia além dos limites da cidade,  pelo menos em alguns dos filmes. (A mesma coisa ocorre com Jason Voorhees que - pelo menos nos primeiros filmes - tem a sua existência e raio de atuação mais ou menos ligada a Crystal Lake.)

E Cthulhu?

Sobre a discussão de Cthulhu ser monstro ou alienígena esta é uma questão de díficil resolução - e muito provavelmente assim o é porquê Lovecraft nos quis deixar mesmo na dúvida. Embora, por um lado, Cthulhu pertença a uma espécie (embora de origem "nas estrelas") bem definida - que teria reinado na Terra antes da Vida como a conhecemos ter evoluído - por outro lado, ele e os da sua espécie não existem exatamente no mesmo contínuo espaço-tempo que a espécie humana - eles existem "no espaço entre os mundos" - ou seja, nos intervalos na Ordem. 

Na mitologia Lovecraftiana, a existência da espécie humana é tão mais episódica, é tão mais acidental, tão mais fortuita e frágil que todo o restante do Universo que - dentro desta mitologia, o ser humano - em toda a duração de sua espécie na Terra - é, na verdade, o  verdadeiro monstro. Assim, quando se diz que Cthulhu dorme e que, quando este acordar a espécie humana terá fim, podemos claramente perceber que - nesta visão Lovecraftiana - Cthulhu é o sonhador do quadro de Goya - e a espécie humana são os seres que só existem enquanto este se encontra adormecido.

Respondido, Azaghal? =)

The Walking Dead (2010)

Assisti o primeiro episódio de The Walking Dead  de espírito aberto, tentando não fazer comparações com a HQ - que já tinha conhecido previamente e adorado! Posso dizer que fiquei bastante satisfeito com o resultado desta adaptação que - com toda  a certeza - agradará a todos aqueles que leram e gostaram do comics - como eu - e também aqueles que não estão familiarizados com as desventuras do policial caipira - e nosso (anti-)herói - Rick Grimes. Na verdade, só uma coisita me incomodou - uma coisita de nada, piquitita, mas que acredito  que vale a pena falar aqui.

Já tivemos a ocasião de falar aqui dos dois tipos de zumbis: os zumbis científicos e os zumbis sobrenaturais - e das importantes diferenças entre eles. Me parece existir uma contradição na maneira como os zumbis foram representados neste primeiro episódio de The Walking Dead: se por um lado eles são bem ágeis - o que os coloca do lado dos zumbis científicos - por outro lado, o nítido processo de decomposição definitivamente os coloca na categoria de zumbis sobrenaturais. Embora eu compreenda que o que  muito provavelmente aconteceu aqui foi uma tentativa de aliar as "melhores" características de cada tipo de zumbi - a agilidade dos científicos e a escatologia dos sobrenaturais - isso francamente me incomoda.

Eu tive a impressão - na HQ - que os zumbis do Universo de The Walking Dead eram aberta e claramente sobrenaturais. Um dos argumento a favor desta hipótese é que - na HQ - todo mundo que morre - independentemente do motivo/causa mortis - torna-se zumbi quase que imdiatamente após a morte: e um sinal gráfico disto - novamente referindo à HQ - é  justamente um "clarão" que cerca o recém defunto após o trespasse.

Além disso, na HQ, os zumbis muito excepcionalmente se movem em uma velocidade superior à de uma pessoa normal caminhando sem pressa - donde o nome "Walking" Dead, os mortos que "caminham". Na cena da cidade, achei que alguns zumbis estavam excessivamente "empolgados" em perseguir o nosso herói caipira. Como metade da alegria de se assistir uma adaptação - de qualquer coisa - é justamente reparar nestas desemelhanças, acredito que estas pequenas incoerências serão mais uma fonte de interesse - e posts - para os próximos episódios. 

Em tempo: no dia 05/11 às 22 horas (aqui no RJ, pelo menos) o NatGeo pega uma caroninha no hype com o documentário "A Verdade sobre os Zumbis". Vou tentar assistir! 

Nota Nerd: A Revista Galileo, por sua vez,  publicou nesta sua última edição uma pequena reportagem sobre os mortos-vivos, na qual cita especificamente a estréia de The Walking Dead. Achei o link para a reportagem aqui. Vale a pena ler toda a matéria, mas o destaque vai para o pequeno Guia ao final de "Como Sobreviver a um Ataque Zumbi", muito bem escritinho - e muito divertido. Só uma incorreção, ao meu ver: a reportagem refere o surgimento do zumbi científico ao filme Extermínio (2002) quando, na realidade, se fossêmos buscar uma origem histórica, acertaríamos mais se os relacionássemos ao filme Resident Evil, do mesmo ano - este, por sua vez derivado do jogo para PS bem anterior (1996).

26 de ago. de 2010

Descendents / Solos (2008)


Acabei de assistir Descendents, um filme de 2008 que, como muitos dos pertencentes ao nobre gênero inaugurado por Romero, nos apresenta a um futuro pós-apocalíptico devastado por zumbis. A diferença aqui - e o que torna esse filme único - é uma só: a história é quase toda narrada  sob a perspectiva de crianças. No Universo do filme, por algum motivo, certas crianças passaram a nascer  imunes não só ao contágio mas também aos ataques dos "infectados" que pululam pelas cidades meio que em ruínas (falamos aqui de zumbis científicos, como já discutimos em outro post). Esta perspectiva narrativa singular confere ao filme uma atmosfera de absoluta desesperança - que pode ser considerada intensa até para os padrões do gênero. A fotografia é em preto-e-branco ou, antes em uma sépia embolorada que ressalta a todo instante a vida se esvaindo daquele mundo - a única exceção aqui é o sangue que, em todas as vezes que aparece, é vividamente vermelho. A narrativa é caótica e por vezes oscila entre as memórias da protagonista e lampejos do que está por vir. Todo este conjunto produz como resultado uma obra perturbadora e, ao mesmo tempo, atraente do ponto de vista estético - coisa rara de se ver em uma produção sulamericana.

Dica: após os créditos finais fique atento para os easter eggs!

25 de ago. de 2010

Trailer - Bellini e o Demônio


Vi meio que por acaso, em um Canal Brasil destes da vida, o Trailer do filme nacional  Bellini e o Demônio, aparentemente inspirado em um livro do mesmo nome. Estrelado por Fábio Assunção - e não consigo imaginar alguém melhor como protagonista - pareceu-me uma mistura de Coração Satânico e O Último Portal. Acho incrível que todos - tudo bem não todos, mas uma boa parte - dos filmes basileiros de Terror tem sempre uma cena de religião afro-derivada: me parece meio lugar comum ou, simplesmente, falta do que colocar.  A cena com as duas freiras me pareceu demasiado semelhante a uma cena análoga do (primeiro) Hellraiser - o que não é de todo ruim pois, pelo menos, indica alguma pesquisa de base. Confira o site oficial aqui.

24 de ago. de 2010

Trailer - The Walking Dead

Assisti hoje ao Trailer de The Walking Dead e achei bastante promissor. Segundo o que li, serão 06 episódios de 1 hora inspirados nos comics. Vamos aguardar para ver o resultado final. Fingers crossed. O Trailer pode ser visto no link no final deste post. Agora, o mais importante: as minhas considerações.

Uma diferença que observei em relação aos quadrinhos é a natureza bem mais dinâmica dos zumbis vistos no trailer - com direito, inclusive, a expressões fisionômicas, coisa impensável nos comics. Isto pode ser - e aqui estou absolutamente teorizando, pois não li nada a respeito - um indício de que os zumbis retratados no filme serão bem mais científicos e menos sobrenaturais que o retratado na série em quadrinhos. Isto parece ser uma tendência de mercado - por assim dizer - e talvez represente uma tentativa de tornar o produto mais palatável para as massas. 

Para os não versados na moderna ciência dos zumbis, segue um rápido descritivo das duas espécies de mortos-vivos que podemos encontrar nos filmes e quadrinhos:

Zumbis científicos tendem a ser o resultado de infecções (criadas pelo Homem ou não), tendem a ser mais ágeis que as suas versões sobrenaturais e muitas vezes não estão realmente mortos - apenas infectados. O fato de os zumbis científicos serem o produto de uma infecção possibilita  a busca de uma vacina/cura como elemento de roteiro (mas isto é um recurso raramente utilizado). Também a conversão de uma pessoa em zumbi se faz geralmente apenas pelo contato direto (mordida, fluidos, etc.). Exemplos de filmes com zumbis científicos são  Resident Evil, 28 Days e o recente Zombieland. 

Zumbis sobrenaturais tendem a se mover mais lentamente, exibir mais sinais de decomposição que suas contra-partes científicas e são mais difíceis de se exterminar - uma vez que partes soltas, como troncos sem pernas, por exemplo, podem permanecer em movimento e constituir ameaças. A conversão se dá geralmente de forma automática: se algum personagem morrer por qualquer causa que seja, ele se transformará em zumbi, pelo simples fato de estar morto. Isto acontece de forma bem clara nos quadrinhos de Walking Dead: todas as vezes que um personagem morre, ele é atingido por um "brilho" e se torna um zumbi. Exemplos de filmes com zumbis sobrenaturais são todos os filmes de Romero - os melhores do seu gênero, na minha opinião. 

Confira o Trailer de The Walking Dead clicando aqui.

Em tempo: o MonsterQuest de hoje é sobre a Atlântida: isso não é meio off-topic?

11 de ago. de 2010

Rings (2005): curta baseado no Universo de O Chamado

Assisti por estes dias o curta de horror Rings (2005), passado no mesmo Universo ficcional de "O Chamado" - mais precisamente entre o primeiro e o segundo filmes da versão americana. Adoro filmes de terror e, em particular, gostei muito do primeiro "O Chamado" e este curta, nos seus despretensiosos 16 minutos, atendeu bem às minhas expectativas. Extramamente recomendável para quem assitiu o primeiro "O Chamado" - e gostou.

Uma curiosidade: o website visto no filme (ou uma boa aproximação deste) existe - como fan site - e pode ser acessado aqui (em inglês).
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