Este post é escrito especificamente para os que ouviram o Nerdcast 232 e 233. Se você chegou aqui por algum motivo e não os ouviu vá aqui e aqui - e depois retorne.
Ouvindo a leitura de e-mails do Nerdcast 233 - me incomodou a dificuldade do JN e do Azaghal em definir o conceito de monstro - justamente que havia sido o tema do Nerdcast anterior- "Dragões, monstros e o impronunciável Cthulhu". Este post é uma tentativa de colocar alguma luz sobre este conceito - que é, por sua própria natureza, refratário a esta iniciativa.
Definido o que é "monstro":
O conceito de " monstro" deriva de três noções básicas que se articulam:
(1) Existe uma Ordem no mundo;
(2) Esta Ordem não é perfeita - e, ocasionalmente, falha;
(3) Quando esta Ordem falha - aí, neste vão, neste espaço, surgem os monstros.
(Poder-se-ia argumentar aqui que a falha na Ordem é - por si só - um Ordem em si mesma - mas não vamos entrar neste debate - por demais filosófico para este Blog.)
Estes três conceitos ficam fáceis de se entender a partir da contemplação do quadro de Goya (ao lado), intitulado "O Sono da Razão Produz Monstros". A razão, aqui, não é a razão humana - mas a razão na Natureza - o princípio de Ordem e razão presente na Natureza.
Como base nestes três pressupostos o monstro - seja ele qual for - é sempre exceção e sempre um desvio da Ordem natural das coisas - é sempre algo que não deveria existir. Muitas vezes, também, os monstros se localizam/originam de lugares
ermos ou inacessíveis - o que serve para representar fisica e geograficamentemente o seu
caráter de exceção. O monstro, além disso, tipicamente se propaga - quando tal ocorre, de forma não-biológica e não-natural - ou possui uma duração indefinida, o que o exime da necessidade de reprodução.
Respondendo às dúvidas do Nerdcast:
Desta forma, usando a lista dada pelo próprio Nerdcast (leitura de e-mails do 233) como exemplo:
Gremlins (os do filme de mesmo nome) são monstros.
Lobisomens - como em The Wolfman (2009) - são monstros. Lobisomens - como em Anjos da Noite (2003) - não são.
Drácula - de Lugosi, de Lee ou como em Bram Stoker´s Dracula (1992), por exemplo - é um monstro.
A Múmia - como no clássico de 1932, The Mummy bem como na versão-pipoca de 1999 com Brendan Fraser - é um monstro.
Frankenstein - de Karloff, por exemplo, mas também o Mary Shelley's Frankenstein (1994) - também é.
Zumbis sobrenaturais são monstros. Zumbis científicos não são.
O caminhão de Encurralado e o Tubarão - de Jaws - não são monstros
Freddy Krueger é um monstro (como não?).
Detalhando:
Gremlins: tanto na sua forma Mogwai quanto na forma réptil - são monstros, porque: (1) existem em caráter de exceção (quem lembra bem do primeiro filme de 1984, nã ovai deixar de perceber que o Mogwai é tratado como um "animal" raro/exótico); (2) se reproduzem de forma não-biológica (quantos animais você conhece que se multiplicam ao se adicionar água?).
Lobisomens: os Lobisomens do filme recente (e belíssimo) The Wolfman (2009) são seres de exceção - que só existem em um local (vilarejo) remoto, etc. - e se propagam de forma, evidentemente, não-natural.
Já os Lobisomens (e também os Vampiros) vistos em Anjos da Noite (2003) e que se constituem em uma verdadeira comunidade de existência paralela à da Humanidade não são monstros - são, no máximo, um espécie diferente da humana, com peculiaridades próprias.
Drácula: o Drácula do livro de Bram Stoker é de fato o monstro por excelência: existe em caráter de exceção (não há menção a outros vampiros no livro - tirando, evidentemente, as "noivas") e em lugar remoto não-sujeito às leis da civilização (algum lugar dos Cárpatos, "esta terra onde o diabo ainda caminha com pés humanos", como o infeliz Johnatan Harker escreve em seu diário). Menções no Cinema - e posteriormente nas séries de TV - a toda uma raça de vampiros existindo em paralelo à humana são invenções muito, muito recentes.
A Múmia: contanto no no clássico de 1932 - com Karloff - bem como nos dois primeiros filmes da Trilogia recente com Brendan Fraser, a Múmia é encarada como um caráter de exceção. No primeiro filme (1999), inclusive, é claramente colocado que o simples fato da Múmia ter retornado à vida é algo tão grave, tão sério, que desafia de tal maneira a ordem natural das coisas que o mundo começa a experimentar os sinais do Apocalipse. - ou seja, de ruptura iminente da Ordem. (No segundo filme isto é abertamente esquecido: e vemos a Múmia em forma plenamente humana andando pra lá e pra cá sem que nada de mais aconteça).
Frankenstein: o simples fato de as pessoas se referirem ao monstro de Frankenstein já seria algum indicativo do seu caráter monstruoso. Aqui há algo interessante: no livro de Mary Shelley, a criatura chantageia o seu criador para que lhe construa uma companheira - esta também feita de pedaços de cadáveres. O plano do monstro - se não me falha a memória - é tomar a sua companheira e seguir para algum lugar ermo onde viveriam happily ever after. Não haveria nenhum impedimento - até onde eu imagino - de o monstro de Frankenstein meramente raptar uma humana qualquer e seguir no seu intento - mas este quer que seja alguém igual a ele - e que partilhe do mesmo caráter de exceção em relação à Humanidade.
Zumbis: os zumbis sobrenaturais são monstros porquê representam uma violação da ordem natural ("Quando não houver mais espaço no Inferno os mortos caminharão pela Terra"): Já os zumbis científicos não são monstros: são, no máximo, pessoas doentes. Isto suscita um dilema ético importante pois, a qualquer momento, poderia surgir uma cura que os revertesse à normalidade. Eu, por mim, sou á favor da volta aos zumbis tipo Romero.
O caminhão de Encurralado: não é um monstro propriamente dito - pois não partilha de nenhuma carcterística "monstruosa" - mas foi tratado no fime como um monstro - como o JN bem ressaltou.
Tubarão: esse é realmente difícil. É fácil perceber que King Kong e Godzilla são monstros, mas o Tubarão (de Jaws) é complicado. Embora este também tenha sido tratado de forma algo monstruosa no filme - do mesmo Spielberg - um tubarão é um tubarão - e, verdade seja dita, o número de vítimas humanas fatais por ataque de tubarão é insignificante perto do que nõs como espécie fazemos com os tubarões todos os anos (são milhões de mortos). Neste caso, nós somos os monstros!
Freddy Krueger: quem lembra bem dos primeiros filmes de A Nightmare on Elm Street (e o título já diz tudo: "Um Pesadelo na Rua Elmo") sabe que a origem de Freddy Krueger está ligada a algo que aconteceu na cidade de Springwood - e sua atividades oníricas estão especificamente relacionadas aos filhos das pessoas responsáveis pela sua morte. Inclusive, se bem me recordo, haveria uma limitação para o alcance de sua atividade - que não se extendia além dos limites da cidade, pelo menos em alguns dos filmes. (A mesma coisa ocorre com Jason Voorhees que - pelo menos nos primeiros filmes - tem a sua existência e raio de atuação mais ou menos ligada a Crystal Lake.)
E Cthulhu?
Sobre a discussão de Cthulhu ser monstro ou alienígena esta é uma questão de díficil resolução - e muito provavelmente assim o é porquê Lovecraft nos quis deixar mesmo na dúvida. Embora, por um lado, Cthulhu pertença a uma espécie (embora de origem "nas estrelas") bem definida - que teria reinado na Terra antes da Vida como a conhecemos ter evoluído - por outro lado, ele e os da sua espécie não existem exatamente no mesmo contínuo espaço-tempo que a espécie humana - eles existem "no espaço entre os mundos" - ou seja, nos intervalos na Ordem.
Na mitologia Lovecraftiana, a existência da espécie humana é tão mais episódica, é tão mais acidental, tão mais fortuita e frágil que todo o restante do Universo que - dentro desta mitologia, o ser humano - em toda a duração de sua espécie na Terra - é, na verdade, o verdadeiro monstro. Assim, quando se diz que Cthulhu dorme e que, quando este acordar a espécie humana terá fim, podemos claramente perceber que - nesta visão Lovecraftiana - Cthulhu é o sonhador do quadro de Goya - e a espécie humana são os seres que só existem enquanto este se encontra adormecido.
Respondido, Azaghal? =)